A semelhança do caso Lázaro com os Irmãos Necrófilos de Nova Friburgo

A mídia nas últimas semanas vem mostrando uma verdadeira caçada das forças especiais da Polícia Militar ao assassino em série ou serial killer, Lázaro Barbosa de Sousa, em Goiás. Muitos friburguenses vêm acompanhando estas notícias e fazendo uma conexão com o caso dos irmãos necrófilos cuja dinâmica da procura do criminoso Lázaro lembra o que ocorreu na localidade de Janela das Andorinhas. As dificuldades das polícias goiana  e do Distrito Federal na captura de Lázaro de Sousa se assemelha em muito a encontrada pelos policiais fluminenses na procura dos irmãos Ibraim e Henrique há trinta e um anos  atrás.

Os homicídios em série cometidos por Ibraim e Henrique Oliveira ocorreram no início da década de 1990 na localidade de Janela das Andorinhas, distrito de Riograndina, área rural do município de Nova Friburgo. A maioria dos lavradores desta região plantam caqui, influência da imigração japonesa. Esta pacata comunidade rural, a mais paupérrima entre os distritos agrícolas de Nova Friburgo, foi cenário de diversos homicídios cometidos com requintes de crueldade pelos irmãos Oliveira, moradores da localidade. A maioria das vítimas eram mulheres. Após os assassinatos Ibraim e Henrique tinham relação sexual com os cadáveres e por isto ganharam a alcunha da mídia de irmãos necrófilos.

Ibraim e Henrique eram filhos de Brás e Maria Luiza de Oliveira, cujo chefe da família trabalhava em um sítio no Alto dos Michéis, Janela das Andorinhas, onde também residiam. Um dos primeiros crimes cometidos foi um estupro em 1990 da menor de R.O. com 12 anos de idade, praticado por Henrique de Oliveira. O delinquente ficou internado durante quatro meses no Centro de Recuperação Integrada de Menores (CRIAM), em Nova Friburgo. Em fevereiro de 1991, Ibrahim e Henrique estrangulam com um fio de náilon Eliana Macedo Xavier, de 22 anos. Por este delito os irmãos foram presos e Ibraim, o mais jovem e menor de idade, estrategicamente assumiu toda a culpa. Ibraim foi internado no Instituto Padre Severino na Ilha do Governador, instituição que cuida de menores infratores. Em novembro de 1994, quando completou 18 anos, Ibraim foi libertado. Segundo sua irmã Márcia quando Ibraim retornou do Instituto Padre Severino ficava o tempo inteiro no seu quarto, calado, afiando facas e quase não se comunicava com a família. Com o tempo mostrou-se mais violento e tentou matar a própria mãe.

As cenas de violência sempre foram uma constante na família Oliveira. Brás de Oliveira era extremamente agressivo, espancava muito a esposa e os filhos foram crescendo assistindo a cenas corriqueiras de violência em casa. Um comerciante de Janela das Andorinhas no qual os dois irmãos prestaram serviços e não quis se identificar, declarou ao Jornal do Brasil que o pai, o lavrador Brás de Oliveira, chegava sempre bêbado em casa, batia muito em Ibraim e Henrique e os obrigava a dormir constantemente no mato. A mãe na ocasião jogava comida para eles no meio do mato e ambos foram criados como animais, informou o comerciante. Ainda segundo ele, os dois irmãos eram obrigados a assistir a relação sexual dos pais. “Com isso eles também começaram a fazer sexo com a mãe, a irmã e entre eles mesmos. Dizem até que o pai os estuprava.” Na infância praticavam pequenos roubos de galinha, pássaros e comida. Brás faleceu de infarto no município de Bom Jardim na ocasião dos primeiros crimes dos filhos.

Maria Luiza de Oliveira, mãe dos irmãos necrófilos. Acervo Revista Manchete, BN.
Maria Luiza de Oliveira, mãe dos irmãos necrófilos. (Acervo Revista Manchete, BN)

A mãe Maria Luiza de Oliveira declarou em entrevista que o marido ameaçava os filhos com um machado e os tirou da escola. Batia muito neles e os obrigava a dormir no mato. Segundo a irmã Márcia o pai batia muito neles porque não queriam trabalhar e ficavam em casa fazendo malcriação. A mãe e a irmã revelaram que foram violentadas diversas vezes por Ibraim. Certa vez Ibraim depois de espancar a irmã fez uma cova para enterrá-la. Tentou enforcá-la mas ela conseguiu se livrar dele e saiu correndo pelo mato pedindo socorro. Encontrou com Henrique que a agarrou e disse que iria ajudá-la, mas violentou-a. Desta relação sexual ficou grávida, mas provocou um aborto. Entre os irmãos, Ibraim era considerado o mais violento e exercia influência sobre Henrique, que padecia de retardamento mental, sendo totalmente submisso ao primeiro.

Márcia Oliveira, irmã dos irmãos necrófilos. Acervo Revista Manchete, BN.
Márcia Oliveira, irmã dos irmãos necrófilos. (Acervo Revista Manchete, BN)

A seguir ocorreu o assassinato de Norma Cláudia de Araújo (ou Cláudia de Oliveira Araújo), com11 anos, praticado por Ibrahim, que teve relações sexuais post mortem com a vítima, extraindo a seguir sua parte genital com golpes de facão. Igualmente matou com golpes de foice a sua tia Vera Lucia Damasceno, de 35 anos. Foram ainda suas vítimas João Carlos Maria da Rocha, com 30 anos, a lavradora Odete de Carvalho Silva, com 56 anos e Iria Moraes Ornellas, com 67 anos. O vigia João Carlos Maria da Rocha, com 30 anos, foi morto a pauladas por Ibraim e a sua namorada a doméstica Elizete Ferreira Lima, com 38 anos foi violentada e esfaqueada, mas sobreviveu. Levou vários pontos na barriga, cinco na testa e 19 na vagina. No total os irmãos foram acusados de homicídio de pelo menos 14 pessoas sendo 12 mulheres, um homem e uma criança, fora as tentativas de homicídio que não lograram êxito. Uma das vítimas atirou contra eles e outra os ameaçou com uma foice, sendo ambas mulheres.

Márcia Cristina atirou em Ibraim para se defender. Acervo Revista Manchete, BN.
Márcia Cristina atirou em Ibraim para se defender. (Acervo Revista Manchete, BN)

Desde que começaram a praticar os crimes, saíram da casa dos pais pois estavam sendo perseguidos pela polícia. Viviam na mata circulando entre o distrito de Riograndina, em Nova Friburgo e o distrito de Mariana no município de Sumidouro. Durante cinco anos os irmãos Ibrahim e Henrique atemorizaram os moradores destes dois distritos agrícolas. Revoltados deram uma surra em Maria Luiza de Oliveira, mãe dos irmãos necrófilos, que teve uma arma apontada na sua cabeça, responsabilizada por ter gerado dois monstros, de acordo com a sua declaração. A Secretaria de Promoção Social de Nova Friburgo a abrigou juntamente com a filha e a neta de meses na Instituição Evangélica Remar do Brasil, em Itaboraí, que trabalha com toxicômanos e mendigos. Depois foi transferida para uma instituição de acolhimento de crianças em Friburgo.

A partir dos primeiros homicídios a procura dos irmãos necrófilos de Nova Friburgo era realizada pelos policiais do 11° Batalhão da Polícia Militar cujo comandante era o tenente-coronel Celso Luiz Pimentel Novaes. No entanto, os policiais militares não tinham treinamento para operações na selva e se queixaram em off para a imprensa que não havia um helicóptero para auxiliá-los. A operação vai contar com o auxílio de um helicóptero da Coordenadoria Geral de Operações Aéreas de Polícia Civil(CEGOA) apenas em novembro de 1995.

O Fluminense, 30 novembro de 1995. Acervo Biblioteca Nacional.
O Fluminense, 30 novembro de 1995. Acervo Biblioteca Nacional.

Após quatro anos sem conseguir prender os irmãos necrófilos pelos policiais locais foram enviadas três expedições do Batalhão de Operações Especiais (BOPE) para auxiliar na captura. Na segunda delas veio uma equipe comandada pelo friburguense capitão Alberto Pedro Neto, especialista em operações de área de selva. Tiveram três “avistamentos” de Ibraim, mas quando os policiais o encontravam ele se abaixava e corria de quatro como um animal, numa velocidade incrível, sumindo no meio da mata que conhecia como ninguém. No ano de 1995, uma terceira expedição com 220 policiais do BOPE foi enviada para Nova Friburgo. Na ocasião o comandante do BOPE era o coronel Humberto Mauro Ramos. Além do BOPE veio a Coordenadoria de Inteligência e Apoio Policial(CINAP) que se instalou em um sítio na região contando com a ajuda de cães farejadores e de mateiros. Recebiam por dia em média 12 ligações da população afirmando ter visto os irmãos necrófilos. Através da Associação de Moradores de Janela das Andorinhas o prefeito Heródoto Bento remunerava os mateiros com uma diária para ajudar a polícia. Os policiais do BOPE fizeram um mapeamento da região com a ajuda de órgãos públicos e de mateiros. Braulio Batista, hoje sargento da Polícia Militar, trabalhava na ocasião no setor de cartografia do IBGE. Ele auxiliou os policiais no mapeamento que cobria uma área de 290.000 quilômetros quadrados. Segundo ele, este perímetro abrangia a estradas de Riograndina, Janelas das Andorinhas, Três Cachoeiras, Campinas, Pilões, Mariana, Rio Grande, Fazenda da Laje, Cascata Pinel, estrada do Rosário, cascata de Banquete e Grotinha da Varginha.

A terceira expedição do BOPE foi comandada pelo friburguense capitão Paulo Roberto Storani Botelho, que me concedeu uma entrevista. Storani Botelho comandava a seção de instruções especializada e uma das equipes. Segundo ele Ibraim circulava com muita facilidade no meio da mata e preferencialmente à noite. Na primeira semana tiveram alguns “pontos de encontro” com Ibraim e quase conseguiram prendê-lo, mas a dificuldade é que ele conhecia melhor a região e por isto conseguia escapar. Tinha uma extrema velocidade em correr agachado e astúcia de se esconder na mata, como dito antes.

O friburguense capitao Paulo Roberto Storani Botelho do BOPE.
O friburguense capitão Paulo Roberto Storani Botelho, do BOPE.

Storani Botelho colocou duplas de policiais distribuídas em vários pontos da mata, em áreas camufladas e nas interseções das trilhas em um sistema de rodízio. Estas duplas ficavam 48 horas na mata, retornavam à base para descansar e eram substituídas por outras. Esta base era em um sítio de um proprietário rural que o cedeu para a operação. Ibraim desapareceu e chegou a ficar um mês sem ser visto. Como ele se sentia acuado com tantos policiais fazendo a ronda decidiram diminuir o número deles para criar uma zona de conforto para o criminoso. Foi quando Ibraim apareceu novamente como previa o comando da polícia e cometeu o seu último homicídio. Assassinou Maria Dorcileia Faltz, de 39 anos, grávida de sete meses e o seu filho Adriano Faltz Gomes, de 9 anos, a pauladas. Ibraim arrastou Maria Dorcileia por vários quilômetros que foi encontrada morta na parte mais alta da Janela das Andorinhas com sinais de violência sexual após a morte. Então o comando geral mudou a estratégia e enviou um maior número de policiais para Nova Friburgo. Henrique desapareceu e quem estava na realidade cometendo os crimes e se escondendo na mata era apenas Ibraim, o mais perigoso dos irmãos. Mas a população e a polícia achavam que estavam juntos.

A crueldade do crime com a família Faltz provocou grande comoção na população. Os vereadores Eugênio Curio, o Geninho, Paulo Gomes, o Vovô, José Aldir e Jorge de Carvalho, acompanhados de duas mil pessoas e a CUT, conduziram os esquifes de Maria Dorcileia Faltz e de seu filho Adriano até a prefeitura. Abriram os caixões em frente ao prédio municipal em um gesto dramático. Segundo a mídia foi uma jogada política, mas de qualquer forma serviu para chamar a atenção dos assassinatos na zona rural do município. O protesto teve resultado. O prefeito Heródoto Bento de Melo ofereceu R$5mil e um gol zero quilômetro a quem desse uma pista dos criminosos que resultasse na sua prisão. Como circulavam também por Mariana, o prefeito de Sumidouro Edmar Serafim ofereceu um Gol zero quilômetro para quem ajudasse com informações. A oferta de recompensas mobilizou ainda mais os moradores locais. Sitiantes e seus empregados faziam ronda munidos com espingardas de caça entre Riograndina e Mariana. Entre os lavradores o acordo era matar os irmãos necrófilos.

A semelhança do caso Lázaro com os Irmãos Necrófilos de Nova Friburgo
Policial do BOPE. (Acervo Revista Manchete, BN)

Finalmente chegou o grande dia da captura Ibraim. Em um sábado Storani Botelho acompanhado de Fernando Príncipe Martins, conhecido como capitão Príncipe, subcomandante do BOPE, foram procurados pelo lavrador César Araújo Pinto, de 46 anos. Ele os informou que a 15 km de onde estavam um sitiante disse que os cachorros latiram a noite inteira. Este lavrador percorreu o local e avistou Ibraim em um bambuzal próximo a este sítio. Havia uma regra nestas operações. Em todo “avistamento” do criminoso os policiais iam imediatamente ao local para dar suporte, uma resposta à população para que não se sentisse desamparada. Diante desta informação Storani Botelho dividiu a sua equipe. Uma parte acompanhou o capitão Príncipe para fazer o patrulhamento do local indicado pelo lavrador e a outra parte seguiu com ele para Mariana, em Sumidouro, onde também havia a informação de que Ibraim fora visto no local. Em Mariana populares disseram que Ibraim foi visto vestindo um short vermelho, camisa xadrez e cabelo desengrenado roubando alimentos de um paiol. Fugiu correndo pelo riacho.

Já o capitão Príncipe foi para o sítio acompanhado do lavrador César Pinto. De um ponto alto do sítio viram abaixo uma moita de samambaias com um movimento suspeito. Então desceram e deram uma volta para ver se encontravam adiante com a suposta pessoa que caminhava entre as samambaias. O lavrador vinha sempre à frente indicando o local. De fato era Ibraim que circulava. Sua reação ao ver o lavrador foi agressiva e partiu com um facão para atacá-lo. O capitão Príncipe um pouco atrás vendo a sua ação disparou dois tiros na perna de Ibraim que continuou avançando sobre o lavrador. O capitão Príncipe então deu mais três tiros em Ibraim que foram fatais. O lavrador César Araújo Pinto ganhou a recompensa da prefeitura de Nova Friburgo.

A morte de Ibraim ocorreu na tarde de sábado, por volta das 15:00 horas, em Barro Branco, localidade de Riograndina. Foram 121 dias de caçada na terceira expedição entre o distrito de Riograndina e Mariana. Ibraim tinha um pé imenso, inchado, pois andava sempre descalço. Tinha estatura baixa e era muito atarracado e forte. O que mais chamou a atenção do capitão Storani Botelho foi que ele tinha carrapatos estrela agarrados e sugando-lhe o peito, que curiosamente não removia.

O delegado Henrique Pessoa, titular da 151 ° DP de Nova Friburgo, pediu à Secretaria de Segurança Pública do Rio de Janeiro para que o corpo não fosse levado para o Instituto Médico Legal de Nova Friburgo porque os moradores de Janela das Andorinhas ameaçavam esquartejar ou queimar o cadáver. O corpo foi então levado para o Instituto Médico Legal de Itaboraí. Ibraim foi enterrado no cemitério público de Esperança, em Sambaetiba, distrito daquele município. Como a família não tinha dinheiro para arcar com as despesas ele foi enterrado como indigente.

Os policiais do BOPE deixaram Nova Friburgo e ficaria a cargo dos policiais do 11° Batalhão da Polícia Militar a captura de Henrique, considerado menos perigoso e que só matava sob a influência de Ibrahim. Em junho de 1996, Henrique de Oliveira se apresentou a promotora da Vara Criminal acompanhado de um sitiante e foi encaminhado para a Divisão de Capturas Polinter, no Rio de Janeiro. De acordo com o diretor deste órgão, o delegado Sá Freire, Henrique negou ter participado dos homicídios e declarou que era obrigado pelo irmão acompanhá-lo, sob pena de ser espancado. O irmão o obrigava a retirar os órgãos genitais das vítimas. Segundo o delegado, Henrique estava muito nervoso e disse que tinha medo de ser assassinado pelos presos da cela.

Um circo de horrores. Homicídios, necrofilia, incesto e tendo como protagonismo uma força especial da polícia, o BOPE. Todos estes elementos resultaram em um filme cujo roteiro macabro já estava pronto. O caso Lázaro traz à memória a dos irmãos necrófilos de Nova Friburgo, acontecimento que a população rural de Janela das Andorinhas ainda não esqueceu.

A semelhança do caso Lázaro com os Irmãos Necrófilos de Nova Friburgo

Por: Janaína Botelho – Serra News

FontesEntrevista do capitão do BOPE Paulo Roberto Storani Botelho a Janaína Botelho; Jornal do Brasil, 26 de novembro de 1995; Jornal do Brasil, 06 de dezembro de 1995; Jornal do Brasil, 18 de dezembro de 1995; Jornal do Brasil, edição 00243; O Fluminense, 26 e 27 de novembro de 1995; O Fluminense, 30 novembro de 1995; O Fluminense, 21 de dezembro de 1995; O Fluminense, 22 de dezembro de 1995; Revista Manchete, 16 de dezembro de 1995; Jornal do Commercio, 19 de junho de 1996.

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